Vejam como uma simples ida ao médico pode se transformar num verdadeiro “circo”!
Em uma daquelas tradicionais passadas no ginecologista, parei pra pensar: você está naquela cama, em uma posição super desconfortável, a médica te examinando comenta com a auxiliar: “nossa, mas está muito boa a recuperação não é? Veja como está rosado (se referindo ao meu útero), e como é estreito o canal dela...”. A médica se referia a minha recuperação depois de realizada uma cauterização. Virando-se pra mim ela continua: “Você tem os músculos fortes!”. Juro, me senti como uma coisa em teste, sabe? Um experimento, ou qualquer coisa do gênero! Você ali, louca pra que aquilo termine, e a médica comentando sobre o que vê com a auxiliar, seu canal, seu útero rosado... sem comentários!
Mas, passada a consulta, e voltando ao início do texto, pego meu carro no estacionamento e paro no farol. Aquela fila enorme! Meu vidro estava aberto pela metade. Vejo um rapaz se aproximar ao meu carro. Instantaneamente, penso em fechar logo meu vidro pra me livrar do “pedidor de esmola”. Mas, olho novamente o rapaz, e eis o que vejo: um homem, de mais ou menos 25 anos, usando uma calça jeans, camiseta colorida de todas as cores possíveis e uma cartola verde limão na cabeça. Minha curiosidade não permitiu fechar o vidro, e esperei pra ver. O homem pára no meu vidro e diz com o tom de voz “afeminado”, segurando uma carteirinha da faculdade Unip nas mãos: “Olá, boa tarde minha jovem. Estou aqui hoje pra agradecer pessoas lindas e inteligentes como você, que ao longo desses 2 anos me ajudam a concluir o meu cursinho de letras na faculdade. Peço novamente que me ajude, e pra agradecer, vou recitar um de meus poemas, A Conchinha Verde”. E lá se pôs o cara a recitar seu poema... com toda uma interpretação, gestos... um verdadeiro artista! Rsrs! Sem contar o poema, intitulado como “A Conchinha Verde”...
Fiquei tão impressionada, que me esqueci de dizer ao rapaz que não tinha um centavo na carteira. Havia dado tudo no estacionamento. E ele lá empolgado, recitando. Ao final, disse a ele que não tinha o trocado, ele agradeceu com um sorriso largo e foi para o próximo carro.
Essa situação me fez refletir e de pronto, me veio à cabeça o ditado de minha avó. Realmente, “a gente morre e não vê de tudo”. Até onde vai a criatividade do povo brasileiro pra arrecadar um trocado? Verdade ou não que o trocado ajudaria no “cursinho de letras” do indivíduo, achei o caso interessante e o homem criativo. Quando percebi, havia esquecido a chata consulta e os comentários da médica, e estava gargalhando, sozinha no carro, parada no farol.
E que coisa, às vezes ficamos tristes por coisas tão pequenas, desanimados por pouco, mal-humorados! E esse cara lá, feliz da vida, num sol de rachar, recitando o poema e encarando o NÃO com um sorriso, me fazendo rir...
Ariane Aleixo







